O sinalagma da esperança ou a antítese do espaço vital


Recordar uma profecia flop não é necessariamente esquecer os profetas. No afã do positivismo contemporâneo, mas dogmático e aespiritual (semi-Comteano) da exclusividade financeira que conduz especialmente os destinos do "ocidente extremo", subsiste a ordem do fim da segunda guerra mundial - Conferência de Ialta - enquanto o próprio mundo já andou por muitas órbitas nestes 70 anos que, de facto, o mudaram, o que, per si, já é suficiente para a ordem no Conselho de Segurança da ONU também mudar. Os membros permanentes com direito a veto já não reflectem a ordem actual.
Com a multipolaridade crescente, já não só com a emergência de potências, mas sobretudo na actividade influente de nações que se estão erguendo das trevas do subdesenvolvimento - os EUA lá vão mantendo a sua "capital potência" agora com a corda na garganta e a (re)entrar de olhos vendados no mundo, ainda com uma ponta aguda fixada no coração, vinda do dragão chinês, público detentor da sua soberana dívida - e a nova ordem mundial instalada (conceito grave para alguns analistas-canalizadores esotéricos-terceiro-fins-mundistas, num registo apocalíptico, em linha flop 21122012), urge reajustar o que é do mundo dos factos ao mundo dos vivos e estes dois mundos (o melhor deles é utopia) ao direito internacional.
À sorumbática ordem, posta e finada, mesmo sem o fatídico dia 21 (do Alto Paraíso no Brasil, onde Jonny Greenwood dos Radiohead esteve um mês a fazer jus ao tema musical Lotus Flower, a Bugarach em França, passando pela NASA enigmática, e outros retiros, todos acreditaram no dia de um novo renascimento), sucede-se a reordenada e centrada ordem assente na esperança. Mas atenção, não é para todos. O novo mundo esperançoso, de frei Fernando Ventura por exemplo, é um mundo diferente da "necessária esperança" de Cavaco.
Esqueçamos (por ora) a teoria (várias) do homem novo, que pode ir desde Friedrich Nietzsche ao super-homem da BD - já vimos que a versão pessimista se mantém em alguns pólos (Joschka Fischer in PÚBLICO 3/01/13 vs embaixadores alemão e francês no PÚBLICO de 22/01/2013) - para assumir que a Alemanha reunificada (termo que aliás já não se tem usado muito) obrigatoriamente entra no clube institucional da nova ordem. Por um lado, defende-se a verdade dos factos e, por outro, ajuda-se a um mundo melhor. Isto porque o mundo dos factos nos ensina que a Alemanha, apesar de perdedora nas guerras mundiais, hoje é uma potência que, se não for assim reconhecida de direito, impor-se-á, enquanto tal, no mundo financeiro, hegemonia essa que não serve os valores da UE; e porque, se não se reconhecer uma potência como a Alemanha, deixando-a no patamar da adolescente auto-afirmação financeira, o mundo não será melhor. Por outras palavras: a realidade jurídica do poder (desactualizado) de hoje está desadequada à realidade da vida diária da UE e da ONU. A manutenção da necessidade da auto-afirmação da Alemanha reunificada poderá, não só em tese, levar a repetir uma realidade histórica que os civilizados erradamente julgaram passada. A guerra não é uma ficção.
A Alemanha só quer o reconhecimento do seu trabalho após as guerras que perdeu. Exige que os seus não-aliados no passado se aproximem de si. A perdedora - que não quer ser eternizada nessa condição - pede fair play e dá o grito do Ipiranga contra o império dos seus anteriores inimigos, agora formais aliados. Um modo Freudiano "de sair do armário" à força, que pode não ser amigo da paz global. A vitalidade que exige reconhecida contrasta com a triste interpretação do "espaço vital" que o assassino ditador e chanceler realizou. No fundo a diferença psicológica entre a Alemanha reunificada e algumas nações árabes, que só querem ser reconhecidas, ou potências emergentes (na última cimeira ibero-americana a ultimate fighting entre Merkel e Dilma - antítese do mal germânico - foi bem patente) não é muita. Não que a Alemanha tenha sido enxovalhada no pós-guerra, mas não é mentira que a sua neutralização forçada já não faz sentido, neste momento, e que a sua reabilitação é irreversível. Martin Schulz está certo quando diz que a Alemanha não pode dar lições aos seus pares mas sim cooperar.
Ou seja, face a este impasse que aparenta ser um embuste da própria história e dos seus factos a saída é reconhecer que a Alemanha reunificada é efectivamente uma potência. Internamente o reconhecimento da líder Merkel, entre os seus pares, elevou-a à qualidade de indiscutível, dir-se-á até com 98% dos votos, recordando o unanimismo da ex-RDA. Exteriormente os alemães não desejam "esperar por Godot". A prova de que actos formais simples podem mudar o mundo será integrar a Alemanha reunificada como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU envolvendo a potência num quadro de paz permanente, dando-lhe o sinal da esperança e aguardando pelo sinalagma de uma nação então menos inquieta.
Neste mundo novo, vêm à liça as declarações de Patriota, ministro das relações exteriores da República Federativa do Brasil que reclamando a sua emergência não acha justo o critério actual para a integração das nações no Conselho de Segurança da ONU, invocando a nova ordem (sem mácula seguramente de profecia antiga/moderna e sem preconceito de assumir a nova ordem). A profecia flop ajudou a verificar que o mundo novo já está em marcha mas que o novo mundo está para chegar. O conceito é simples: se a Alemanha é uma potência devemos reconhecê-la como tal. Se a UE ainda não é uma entidade política plena então não é uma potência. Realpolitik é igual a vida real. Ou seja, segundo um Presidente dos EUA: "Faça o que puder, onde você está, com o que você tem!" (Theodore Roosevelt).

José Assis
Advogado

link: Públíco

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