Texto de Robert M. Fishman publicado no New York Times

A crise que começou com o socorro da Grécia e da Irlanda no ano passado, tomou um caminho feio. No entanto, este terceiro pedido de resgate não é realmente sobre a dívida. Portugal teve um forte desempenho económico em 1990 e estava a gerir a sua recuperação da recessão global melhor do que vários outros países na Europa, mas tem estado sob pressão injusta e arbitrária por parte dos negociantes de títulos, os especuladores e analistas de notação de crédito que, por miopia ou razões ideológicas, já conseguiram expulsar um governo democraticamente eleito e, potencialmente, amarrar as mãos do próximo.
Se deixados sem regulamentação, estas forças de mercado ameaça meclipsar a capacidade dos governos democráticos - talvez até mesmo dos Estados Unidos - para fazer suas próprias escolhas sobre os impostos e gastos.
As dificuldades de Portugal decerto se assemelham às da Grécia e da Irlanda: para os três países, a adoção do euro, uma década atrás, significava que eles tinham de ceder o controle sobre sua política monetária, e um súbito aumento nos prémios de risco que os mercados de títulos atribuíam à sua dívida soberana, foi este o início para os pedidos de resgate.
Mas na Grécia e na Irlanda, o veredicto dos mercados refletiu profunda e facilmente identificáveis ​​os problemas económicos. A crise em Portugal é completamente diferente, não havia uma verdadeira crise subjacente. As instituições económicas e políticas em Portugal, que alguns analistas financeiros vêem como irremediavelmente inefecientes, tinha mconseguido êxitos notáveis, antes desta nação ibérica de 10 milhões de habitantes ser submetida a sucessivas ondas de ataques de operadores de títulos.
Mercado de contágio e rebaixamentos de classificação, começando quando a magnitude das dificuldades da Grécia à tona no início de 2010, tornaram-se uma profecia auto-realizável: elevando os custos de Portugal de contratação de empréstimos para níveis insustentáveis, as agências de rating obrigoram o país a procurar juda. O resgate tem os poderes de "resgate" para empurrar Portugal para uma política de austeridade impopular que afectam os beneficiários de pensões de reforma, a redução da pobreza e os salários dos funcionários públicos de todos os tipos.
A crise não é Portuguesa, a sua dívida acumulada está bem abaixo do nível de nações como a Itália que não foram sujeitas a estas avaliações devastadoras. O seu défice orçamental inferior ao de vários outros países europeus vem caindo rapidamente, como resultado dos esforços do governo.
E quais as perspectivas de crescimento do país, que os analistas convencionais assumema serem tristes? No primeiro trimestre de 2010, antes dos mercados empurrarem as taxas de juros dos títulos Portugueses para cima, o país teve uma das melhores taxas de recuperação económica na União Europeia. Em uma série de medidas - a inovação empresarial, o ensino médio e realização e crescimento das exportações - Portugal tem acompanhado ou mesmo ultrapassado os seus vizinhos do sul e até mesmo da Europa Ocidental.
Porque é que então Portugal viu o seu rating baixar e foi dessa forma empurrado para o abismo? Há duas explicações possíveis. Uma é o cepticismo ideológico do modelo de Portugal de economia mista, com os seus empréstimos de apoio público para as pequenas empresas, ao lado de um pequeno número de grandes empresas estatais e um Estado social robusto. Os fundamentalistas do mercado detestam as intervenções keynesianas, nas áreas da política de habitação em Portugal - o que evitou uma bolha e preservou a disponibilidade de baixo custo no arrendamento urbano.
A falta de perspectiva histórica é outra explicação, os padrões de vida Portugueses têm aumentado consideravelmente nos 25 anos após a revolução democrática de Abril de 1974. Em 1990 a produtividade do trabalho aumentou rapidamente, as empresas privadas aprofundaram o investimento de capital com a ajuda do governo e dos partidos, tanto do centro-direita e de centro-esquerda, apoiadas no aumento do gasto da sociedade. No final do século o país teve uma das menores taxas do desemprego na Europa.
Com toda a franqueza, o otimismo da década de 1990 deu origem a desequilíbrios económicos e gastos excessivos criticos ao ponto de afectar Portugal e a sua saúde económica, factos que motivaram a estagnação de 2000-2006. Mesmo assim, no início da crise financeira mundial, em 2007, a economia voltou a crescer e o desemprego a cair. A recessão acabou com essa recuperação, mas o crescimento foi retomado no segundo trimestre de 2009, mais cedo do que em outros países.
A política interna não é a culpada. O primeiro-ministro José Sócrates e os socialistas que governam conseguiram reduzir o déficit, promovendo a competitividade e mantiveram os gastos sociais, a oposição insistiu que poderia fazer melhor e forçou a saida do Sr. Sócrates este mês, preparando o palco para novas eleições em Junho. Este é o cenário normal da política, não é um sinal de desordem ou incompetência que alguns críticos de Portugal têm retratado.
A Europa poderia ter evitado esse resgate? O Banco Central Europeu poderia ter comprado títulos Portugueses evitando o pânico. A Regulamentação da União Europeia e dos Estados Unidos nos processos utilizados pelas agências de notação ao avaliar a solvabilidade da dívida de um país é também essencial. Pela percepção que temos distorcem o mercado, as agências de rating - cujo papel no fomento da crise das hipotecas subprime nos Estados Unidos tem sido amplamente documentado - prejudicaram tanto a sua recuperação económica como a sua liberdade política.
No destino de Portugal encontra-se uma clara advertência para outros países, inclusive os Estados Unidos. A revolução de Portugal de 1974, inaugurou uma onda de democratização que varreu o mundo. É bem possível que 2011 marque o início de uma onda de invasão da democracia, mercados não regulamentados, com a Espanha, Itália ou a Bélgica como as próximas potenciais vítimas.
Os americanos não aceitariam, que as instituições internacionais fossem dizer a Nova Iorque, ou a qualquer outro município norte-americano, para abandonar as leis de controle de rendas. Mas isso é precisamente o tipo de interferência que agora atinge Portugal - tal como foi feito na Irlanda e na Grécia, apesar destes países serem mais responsáveis por seu destino.
Apenas os governos eleitos e os seus líderes podem garantir que esta crise não acaba por minar os processos democráticos. Até agora, eles parecem ter deixado tudo aos caprichos dos mercados de dívida e agências de rating.

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