Cá vamos alegres cantando e rindo

É triste mas é verdade, sobre a realidade de Fernão Ferro leia o texto de Clara Ferreira Alves, no Expresso ou aqui:

"Um Portugal feito de plástico


Tudo falhou. O turismo foi repelido e o dinheiro acabou. Tal como o tempo.
É um lugar de passagem que se define a partir da estrada para outro lugar. É também uma paisagem que define o modelo de desenvolvimento português. Sai-se da auto-estrada e entra-se numa estrada cheia de semáforos que prepara o caminho para a Arrábida, Sesimbra, Azeitão, a Lagoa de Albufeira e as praias do Meco. Quem escolher este roteiro, a não ser que vá dar a volta por Setúbal e pela serra, terá de passar em Fernão Ferro. Uma freguesia com cerca de 10 mil habitantes criada em 1993 pelo desmembramento de Aldeia de Paio Pires, Amora e Arrentela. O nome vem de um tal Fernão Ferro Peres, que tinha o cognome de Babilon. Irmão do tal Paio Pires, ou Paio Peres, fundador da dita aldeia. Segundo a melhor informação pesquisada na net, um cruzado caído em desgraça durante a guerra entre D. Sancho II e D. Afonso III. Usava a Cruz de Cristo na armadura e no punho da espada, que se designava por "ferro". Ou então, o nome vir-lhe-ia de ferrar animais. Parece ter sido um homem corpulento e cruel. Um ferrabrás. O homem não tem culpa do que veio a seguir.

Quem passa a caminho de mais verdes paragens conhece o troço de Fernão Ferro por "o pesadelo". Ou "a lixeira". Próspera, cheia de moradias, algumas com piscina, a freguesia não é habitada por gente pobre. O problema não é a pobreza, é o modelo de riqueza. Dos 25 km quadrados a maior parte deve ter sido mata e pinhal dos quais se notam alguns vestígios secos e poeirentos, troncos ressequidos e manchas de pinheiros onde esvoaçam sacos de plástico nos dias de vento. A estrada serve de mostruário dos intermediários e negociantes dos objectos, serviços e confortos da existência suburbana que copia a rústica. Piscinas de plástico; lareiras de pedra falsa; banheiras, retretes e lavatórios de porcelana; organizações de eventos, casamentos e baptizados; hortos, vasos e potes de barro; gnomos e fornos; restaurantes com nomes em elisão; automóveis novos e em segunda mão; hotéis diurnos; oficinas de mecânica e bate-chapas; esquemas nocturnos. Existe uma loja, com vasto pátio a dar sobre a estrada, que ostenta um jardim zoológico em réplicas de tamanho natural, cavalos e campinos, burros e javalis. Decerto haverá golfinhos. Leões de gesso olham do alto dos muros das casas, guardiães dos templos do mau gosto. Num jardim particular, a Branca de Neve e os Sete Anões está cercada por uma variedade de estatuetas e miniaturas de alfaias agrícolas na Disneylândia ao domicílio.

A estrada, por dar acesso a muitos lugares, está sempre atascada de carros em marcha lenta, filas intermináveis aos fins-de-semana. Carros caros, condutores com mão fora da janela e a outra no volante, o ar displicente e entediado dos malandros de estrada, toca-me que vou-te às trombas comigo não te metes. Não espanta que os fabricantes e revendedores ostentem tudo o que se pode ostentar à beira da estrada, os automobilistas são potenciais clientes. Lembro-me de há uns anos se verem retretes, designadas nos letreiros por sanitas, aprumadas como soldados à beira do alcatrão. As árvores foram deitadas abaixo para entrar o cimento e não se vislumbra um plano urbano, uma rua desenhada, uma vaga redenção. Tudo é feio, sujo, inacabado, aziago. Ali jaz o que os portugueses tomaram como sendo o seu ideal modelo de desenvolvimento, o alcatrão para o carro, o betão para a obra, a televisão acesa todo o dia no café com um concurso ou uma telenovela. A construção civil como motor da economia, o lazer como actividade urbana separada da vida do subúrbio por um carro, uma praia ou um piquenique. Uma gente que não sabe o gosto que tem, que nada aprendeu e nada quis aprender, e que passou do semianalfabetismo para o telemóvel sem passagem pela educação e a literacia. Pequenos e médios empresários de arrojo videirinho protegidos por autarcas espertos que nunca foram diferentes deles. Uns e outros confundidos na ganância do curto prazo. A paisagem devassada por construções da clandestinidade, algumas legalizadas à força, e microindústrias que passaram a providenciar serviços na segunda fase económica do ciclo de prosperidade iniciado com a revolução e a descentralização. Eventos e espectáculos organizam-se. T2 vendem-se.

Podia ter sido feito de outra forma? Podia, mas não seria a mesma coisa. A dádiva da arriba da Caparica não é mais do que outra babilónia, um monte de praias emporcalhadas e barracas de terceiro mundo. Tudo falhou. Como nestas freguesias dos contrafortes da Arrábida onde tudo foi autorizado ou amalgamado. Basta olhar para a freguesia limítrofe de Fernão Ferro, a Quinta do Conde. O turismo foi repelido e o dinheiro acabou, tal como o tempo. Os imigrantes acabarão por ir um dia. Aqui cabe inteiro o pobre Portugal do Alexandre O'Neill: feito de três sílabas de plástico que é mais barato."


Texto publicado na edição da Única de 29 de Maio de 2010

1 comentário:

Anónimo disse...

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