A mentira

Ou a mentira como forma de fazer política.
O mês passado fui alertado por responsáveis de associações de pais do concelho que, presumivelmente, a Câmara, ao contrário dos anos anteriores, não iria disponibilizar transportes, no âmbito da iniciativa "Férias desportivas".
Levei a questão a sessão de Câmara questionando o executivo municipal que reagiu com grande espanto, afirmando mesmo, pela voz da Vereadora Vanessa Silva que tal apoio estava assegurado.
Pois é... Duas semanas depois chegou um ofício às associações de pais do concelho, onde se pode ler: "No âmbito do projecto férias desportivas .../... não será possível dar continuidade ao apoio de transportes para as referidas instalações e/ou outras actividades."
No mesmo documento pode-se ler que, este ano, por razões de segurança a piscina da Torre da Marinha não abrirá ao público. Enquanto noutros concelhos os executivos municipais inauguram equipamentos que servam a população o executivo CDU/PCP do Seixal encerra-os.
Face ao exposto os Vereadores Socialistas na CMS exigem a reposiçao da cedência dos transportes na iniciativa "férias desportivas" bem como a rápida intervenção na piscina da Torre da Marinha,por forma a que a mesma possa ser aberta ainda este ano.
Antecipando possíveis justificações de cariz económico-financeiro, desde já afirmamos não as aceitarmos, pois um executivo que aceita gastar 90.000€ (noventa mil euros) num tapete decorativo não tem qualquer moral para pedir sacrifícios a quem quer que seja.

Curiosidade no dia de São João

Hino litúrgico de São João Baptista

Sabe-se que foi a partir das sílabas iniciais dos versos da primeira estrofe do hino litúrgico em honra de São João Baptista que se formaram os nomes das notas musicais. Veja-se como:

‘’Ut’’ queant laxis ~
´´Re’’ ssonare fibris
‘’Mi’’ ra gestorum
‘’Fa’’ muli tuorum,
‘’Sol’’ ve polluti
‘’La’’ bii reatum,
‘’S’’ ancte ‘’J’’ohannes.

O ut foi depois substituído por dó. O si é constituído pelas letras iniciais latinas de Sancte Johanes (São João: o j lia-se como i).

North Korea vs Portugal (North Korean Broadcast) 2010

Turismo no Seixal


Pede-me o jornal Comércio do Seixal e Sesimbra que me debruce sobre a temática do Turismo no concelho, pedido simpático mas envenenado, como falar duma coisa que não existe?
Uma rápida busca no Google, sobre o que já se escreveu sobre a matéria, comprova a minha intuição inicial…
Relembro por exemplo que no mês de Agosto de 2007 visitaram o posto de Turismo do Seixal (não conhece? É natural, é um bocadinho escondido) 17 pessoas. Confesso que até nem estava à espera de tantos turistas no concelho, apesar de este ser o mês de férias por excelência. Quase um visitante por dia útil, ou um turista dia sim, dia não, se contarmos todos os dias do mês até nem é uma má média.
Só não compreendo porque é que trabalha tanta gente no Turismo da Câmara, é que, feitas as contas, cada funcionário atende um turista por semana, não será uma grande produtividade!
Há já sei… Vão-me falar dos estudos e dos grandes planos que existem para a Baía. Redireccionei então a minha busca sobre a matéria e recuei a Julho de 2005, jornal Setúbal na Rede entrevista a então coordenadora do Plano Estratégico de Desenvolvimento do Turismo do Seixal, que identifico como a posteriormente coordenadora do Gabinete de Turismo e actualmente Directora de Projecto de revitalização da Baía – por momentos descanso, tantas promoções consecutivas premeiam certamente um trabalho de excelência.
O pior vem depois, a leitura do que se prometeu à cinco anos:
1. “…/… fundação de um centro de interpretação para contactar com a história do concelho”, o centro seria instalado no Alto Forno da Siderurgia Nacional (sim leu bem na siderurgia) e era a âncora de todo o projecto.
2. “a vinda de vários projectos hoteleiros como um hotel de quatro estrelas na área dos negócios”, vários? Paletes, eu ando no Seixal e é só hotéis!
3. “voltado para pequenas estadias”, há bom, afinal há uma certa modéstia no prometido, são vários hotéis mas é só para pequenas estadias…
4. “São propostas que passarão, brevemente, à fase seguinte de priorizar investimentos e obter financiamentos”, vá lá, não sejam assim, ainda só passaram cinco anos, o que é isso na vida duma pessoa?
5. “…/… o plano assenta na criação de duas rotas turística. Uma denominada “Arqueologia Industrial” voltada para as “pérolas do concelho”, o moinho de maré de Corroios, a antiga Siderurgia Nacional, a olaria da Quinta do Rouxinol ou a seca do bacalhau.” Há afinal o texto era para ter graça… Até aqui não tinha percebido, ora vejamos: vamos construir o projecto âncora do turismo no Seixal num dos sítios mais poluídos do país – a siderurgia nacional – que é, a par da olaria romana do Rouxinol (que a Câmara mandou aterrar) e da seca do bacalhau que a Câmara deixou desmoronar, a pérola do concelho! Estranha forma de tratar as jóias.
6. “o vasto património industrial que existe no concelho “rivaliza com zonas do País Basco, do reino Unido e da Alemanha” …/… No caso da Siderurgia Nacional, “já existe um pedido de musealização do Alto Forno”. Sinto-me esmagado… Mas adiante.
7. “O plano incentiva a criação de uma pousada da juventude e de um parque de campismo, bem como a recuperação de antigas quintas do concelho para turismo de habitação.” E os quatro hotéis, não esquecer.

E pronto, só faltou dizer que o Plano foi encomendado à Universidade de Aveiro, tem 57 páginas e cada uma dessas páginas custou ao município mais de cinco mil euros.
Assim vai o turismo no concelho do Seixal.

Cá vamos alegres cantando e rindo

É triste mas é verdade, sobre a realidade de Fernão Ferro leia o texto de Clara Ferreira Alves, no Expresso ou aqui:

"Um Portugal feito de plástico


Tudo falhou. O turismo foi repelido e o dinheiro acabou. Tal como o tempo.
É um lugar de passagem que se define a partir da estrada para outro lugar. É também uma paisagem que define o modelo de desenvolvimento português. Sai-se da auto-estrada e entra-se numa estrada cheia de semáforos que prepara o caminho para a Arrábida, Sesimbra, Azeitão, a Lagoa de Albufeira e as praias do Meco. Quem escolher este roteiro, a não ser que vá dar a volta por Setúbal e pela serra, terá de passar em Fernão Ferro. Uma freguesia com cerca de 10 mil habitantes criada em 1993 pelo desmembramento de Aldeia de Paio Pires, Amora e Arrentela. O nome vem de um tal Fernão Ferro Peres, que tinha o cognome de Babilon. Irmão do tal Paio Pires, ou Paio Peres, fundador da dita aldeia. Segundo a melhor informação pesquisada na net, um cruzado caído em desgraça durante a guerra entre D. Sancho II e D. Afonso III. Usava a Cruz de Cristo na armadura e no punho da espada, que se designava por "ferro". Ou então, o nome vir-lhe-ia de ferrar animais. Parece ter sido um homem corpulento e cruel. Um ferrabrás. O homem não tem culpa do que veio a seguir.

Quem passa a caminho de mais verdes paragens conhece o troço de Fernão Ferro por "o pesadelo". Ou "a lixeira". Próspera, cheia de moradias, algumas com piscina, a freguesia não é habitada por gente pobre. O problema não é a pobreza, é o modelo de riqueza. Dos 25 km quadrados a maior parte deve ter sido mata e pinhal dos quais se notam alguns vestígios secos e poeirentos, troncos ressequidos e manchas de pinheiros onde esvoaçam sacos de plástico nos dias de vento. A estrada serve de mostruário dos intermediários e negociantes dos objectos, serviços e confortos da existência suburbana que copia a rústica. Piscinas de plástico; lareiras de pedra falsa; banheiras, retretes e lavatórios de porcelana; organizações de eventos, casamentos e baptizados; hortos, vasos e potes de barro; gnomos e fornos; restaurantes com nomes em elisão; automóveis novos e em segunda mão; hotéis diurnos; oficinas de mecânica e bate-chapas; esquemas nocturnos. Existe uma loja, com vasto pátio a dar sobre a estrada, que ostenta um jardim zoológico em réplicas de tamanho natural, cavalos e campinos, burros e javalis. Decerto haverá golfinhos. Leões de gesso olham do alto dos muros das casas, guardiães dos templos do mau gosto. Num jardim particular, a Branca de Neve e os Sete Anões está cercada por uma variedade de estatuetas e miniaturas de alfaias agrícolas na Disneylândia ao domicílio.

A estrada, por dar acesso a muitos lugares, está sempre atascada de carros em marcha lenta, filas intermináveis aos fins-de-semana. Carros caros, condutores com mão fora da janela e a outra no volante, o ar displicente e entediado dos malandros de estrada, toca-me que vou-te às trombas comigo não te metes. Não espanta que os fabricantes e revendedores ostentem tudo o que se pode ostentar à beira da estrada, os automobilistas são potenciais clientes. Lembro-me de há uns anos se verem retretes, designadas nos letreiros por sanitas, aprumadas como soldados à beira do alcatrão. As árvores foram deitadas abaixo para entrar o cimento e não se vislumbra um plano urbano, uma rua desenhada, uma vaga redenção. Tudo é feio, sujo, inacabado, aziago. Ali jaz o que os portugueses tomaram como sendo o seu ideal modelo de desenvolvimento, o alcatrão para o carro, o betão para a obra, a televisão acesa todo o dia no café com um concurso ou uma telenovela. A construção civil como motor da economia, o lazer como actividade urbana separada da vida do subúrbio por um carro, uma praia ou um piquenique. Uma gente que não sabe o gosto que tem, que nada aprendeu e nada quis aprender, e que passou do semianalfabetismo para o telemóvel sem passagem pela educação e a literacia. Pequenos e médios empresários de arrojo videirinho protegidos por autarcas espertos que nunca foram diferentes deles. Uns e outros confundidos na ganância do curto prazo. A paisagem devassada por construções da clandestinidade, algumas legalizadas à força, e microindústrias que passaram a providenciar serviços na segunda fase económica do ciclo de prosperidade iniciado com a revolução e a descentralização. Eventos e espectáculos organizam-se. T2 vendem-se.

Podia ter sido feito de outra forma? Podia, mas não seria a mesma coisa. A dádiva da arriba da Caparica não é mais do que outra babilónia, um monte de praias emporcalhadas e barracas de terceiro mundo. Tudo falhou. Como nestas freguesias dos contrafortes da Arrábida onde tudo foi autorizado ou amalgamado. Basta olhar para a freguesia limítrofe de Fernão Ferro, a Quinta do Conde. O turismo foi repelido e o dinheiro acabou, tal como o tempo. Os imigrantes acabarão por ir um dia. Aqui cabe inteiro o pobre Portugal do Alexandre O'Neill: feito de três sílabas de plástico que é mais barato."


Texto publicado na edição da Única de 29 de Maio de 2010

Grandes Republicanos


Amanhã vou visitar a Quinta da Trindade, dessa visita aqui darei conta mais tarde.
O que me traz aqui agora é que na busca da história deste imóvel tropecei nesta carta de Ramada Curto - ilustre Republicano, fundador do Partido Socialista Português, Ministro do Trabalho e das Finanças, insigne Advogado, organizador da Carbonária e Maçom com o grau 33, que por acaso era compadre do Martins, Rei do Lixo, que por sua vez mandou eregir a quinta da Trindade, tal como a conhecemos hoje.
Ora deliciem-se, em particular pela actualidade, como eu, também Socialista e Advogado, o fiz.

Ramada Curto, farto de viver da fama, faz uma reclamação à Ordem dos Advogados:


"Excelentíssimos Senhores
Amílcar Ramada Curto, advogado nos auditórios da Comarca, com escritório na Rua Nova do Almada, 59-2º, vem reclamar contra a colecta de taxa e meia em que V.Exas. resolveram colectá-lo, certamente na melhor das intenções, mas com inteira deficiência nas informações em que basearam a sua resolução.
Efectivamente, o reclamante tem no foro português uma modestíssima situação em proventos.
Reconhece o reclamante que tem um apelido em que não há concordância gramatical e que, talvez por isso, fixando-se com facilidade esse contra senso na opinião pública faça com que o seu portador goze de uma relativa popularidade. De resto esse erro de gramática passou-se na política, no Governo, no Foro e até, ultimamente, como fazedor de autos e comédias. Daí deriva, talvez, uma das razões que levou V.Exas. a errar.
Mas, exactamente, essa dispersiva actividade do reclamante, deu como resultado o seguinte: - O reclamante tem muito pouco que fazer, tem uma advocacia pobre, em que há muita "assistência", muita "borla", como nos teatros, derivada da fama, aliás merecida, de que o reclamante tem muito bom coração e, em suma, é socialista. Exactamente, Ilustres Confrades, esta última pecha de socialista, afasta do escritório do reclamante a classe que pode pagar. É natural. Uma profissão que vive, em grande parte, em defesa dos interesses e Instituições em que se baseia a orgânica social, a Propriedade, o Comércio, a Banca, a Indústria, dificilmente pode ser exercida por uma pessoa publicamente dissidente de todas as instituições.
Compreenderia alguém que, no extinto regime, a Casa Real autorizasse um comerciante provadamente republicano, anunciar-se como seu fornecedor ou sequer lhe consumisse géneros? Ainda mesmo que os géneros da sua loja fossem sensivelmente da melhor qualidade que os de outras lojas vizinhas, nunca a Administração Palatina cairia em tal contra senso que importaria uma transacção deprimente.
Aplicando à hipótese sub-judice o mesmo raciocínio, poderão V.Exas. constatar que o reclamante não é fornecedor da Casa Real, quer dizer, não é advogado de Bancos e Companhias.
Ou, por ser inteiramente verdadeiro, há um Banco com o qual o suplicante tem, mas só de vez em quando, um lucrativo contrato. É o Banco dos Réus. E "só de vez em quando" porque, esse mesmo, tem os seus especialistas com avença.
Quanto a Companhias, tirando a das águas e Reunidas de Gás e Electricidade, com quem o reclamante tem as relações de consumidor, as únicas Companhias que lhes aproveitam às vezes os seus serviços, são as Companhias Dramáticas, e essas não lhe pagam.
De sorte que a situação do reclamante como profissional do Foro é sui-generis. O Limoeiro tem os seus fornecedores especializados e a Rua dos Capelistas os seus fornecedores predilectos. Em nenhuma destas posições se encontra o reclamante mal com os homens por amor de El-Rei e mal com El-Rei por amor dos homens, segundo um exemplo ilustre de advogado.
Ora, se V.Exas. ponderarem os nomes ilustres que tem colecta inferior ou igual ao reclamante, e na situação pública de advogado de Companhias, de Câmaras Municipais, do Alto Comércio e da Alta Banca, e até quase da Cúria Romana que os assim colectados ocupam, e se compararem com a modesta situação do reclamante, que não tem a compensá-lo a falta de tais fregueses, a clientela habitual do Limoeiro, V.Exas. reconhecerão que, pelo menos a meia taxa é exagerada.

A menos que, o que seria extremamente lisonjeiro, o critério de V.Exas. tenha obedecido ao reconhecimento da situação profissional do reclamante e da injustiça que ela representa em relação aos seus méritos, e procurem por outra forma indirecta recomendá-lo à atenção dos bons clientes, pondo-o numa situação de relativo destaque.

Simplesmente, se assim é, e sem deixar de agradecer as atenções o reclamante pondera a V.Exas. que, como reclame, é talvez caro.
Faz estas reclamações o reclamante, sofrendo do seu orgulho. Se as não faz em tom de carpideira é ainda por aprumo e porque lhe ficou este geito da sua vida de comediógrafo que foge às apóstrofes violentas.
Ninguém tem mais pena de que isto assim seja do que ele próprio. Mas é assim. As suas razões têm o zelo irrefragável da verdade.
Mandem V.Exas. averiguar pelos cartórios e perguntem ao Comércio da Capital e terão a confirmação do facto.
Há um provérbio persa que diz que o Criador Ormuz marcou as criaturas com a mesma letra ao fabricá-las. A qual letra é um F. Em persa simplesmente esse F tem três significações:
A primeira é esta:
Faço-te. O Povo (!) que tem esta letra com esse sentido marcada no seu destino, tem a vida feita e escusa de se ralar; esses devem pagar todas as taxas.
A segunda significação é esta:
Faze-te. É o caso do reclamante; cansadamente, com o suado esforço, lá se vai fazendo. Devo pagar uma taxa.
E como não interessa a terceira significação da letra à presente reclamação e o reclamante não saiba o suficiente de persa para a poder traduzir, só o que lhe parece é que esses, a quem coube essa significação, não devem pagar taxa alguma.
V.Exas,, meus ilustres Colegas, ponderarão a sinceridade e a triste verdade desta reclamação.
Se o reclamante não for atendido, nada mais lhe resta do que curvar-se, mas com a consciência de ter sido vítima de um erro de apreciação.
E respeitosamente se assina,
a) Amilcar Ramada Curto"
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