Entrevista Notícias do Seixal


Notícias do Seixal – Apesar de ser sobejamente conhecido, gostaríamos que nos falasse um pouco da sua ligação ao Seixal. (se aqui nasceu, cresceu, percurso político, etc.)

Samuel Cruz – Nasci em Lisboa, no hospital da CUF, onde a minha mãe trabalhava, mas com três dias vim para o Alto do Moinho. Reparei, há poucos dias, que ainda lá está a vivenda Cruz. Segundo dizem com três anos fui viver para Fernão Ferro, para a Quinta dos Girassóis, que ainda existe, agora é um restaurante e fazem lá casamentos. Fui batizado na Igreja de Amora, brinquei muito no jardim do Seixal e aprendi as primeiras letras no velhinho Novo Dia na Cruz de Pau. Também me lembro de vir dar o nome para a tropa ao Seixal, no edifício onde funciona agora a assessoria jurídica da Câmara. Já vivi em casa da minha mulher na Torre da Marinha e costumo dizer a brincar que corto a barba no Banza em Paio Pires (agora há algum tempo que não vou lá). Portanto eu não só sou do concelho do Seixal, como conheço muito bem cada uma das suas freguesias. Apesar de tudo sinto que o meu bairro é o Miratejo, onde passei toda a minha juventude.
Actualmente resido com a minha família, de novo, no Alto do Moinho e trabalho no Fogueteiro, onde sou Advogado.


NS - Qual o balanço que faz da sua actividade enquanto vereador na Câmara Municipal de Seixal?

Samuel Cruz – O balanço só pode ser positivo. Costumo dizer que só mantenho a minha actividade política enquanto o saldo for positivo, sendo que o que dou é o meu tempo e o que ganho o que aprendo. Por enquanto mantenho a condição necessária para desempenhar a minha função que é: ter a cabeça e o coração no mesmo sítio, é uma equação que devemos sempre fazer perante as decisões mais importantes da nossa vida, se a nossa cabeça e o nosso coração estão de acordo. Se assim não for, é certinho que vai sair asneira.
No entanto não lhe escondo que tem sido difícil, são já muitas horas “roubadas” à minha família e ao meu descanso aplicadas no estudo de legislação, dossiers e a tentar descobrir aquilo que não me querem mostrar.


NS - É difícil ser vereador da oposição com este executivo camarário?

SC – Sem dúvida. O maior problema é a mentira. Dou-lhe três exemplos: Colocámos em sessão de Câmara a questão da divida da água do Benfica (cerca de 500.000€), foi-nos respondido que não existia dívida nenhuma. Dois dias depois o Jornal de Notícias tinha a notícia na capa… Afinal a dívida existia.
Aquando do atraso na entrega da candidatura do QREN, ninguém informou disso os Vereadores da oposição. A notícia saiu na comunicação social e logo foi dito que o executivo estava informado. É mentira, nada foi dito e nada consta nas actas das sessões de Câmara. Mais o Sr. Presidente repetiu esta inverdade na reunião da Assembleia Municipal sobre o assunto e perante a minha indignação nem sequer me foi permitido usar da palavra! Assim como sobre esta matéria também é mentira que o atraso tenha sido de apenas dois minutos, consultei o processo e afirmo que o atraso foi de 34 minutos, a relevância desta “mentirinha” não é nenhuma mas demonstra como o hábito de faltar à verdade está enraizado.
O terceiro exemplo prende-se com a Fiscalização à Câmara por parte da Inspecção Geral de Finanças. O relatório final desta instituição foi remetido ao Tribunal de contas por se considerar que tinham sido cometidas infracções financeiras, susceptíveis de resultar em responsabilidade financeira do Sr. Presidente da Câmara. Mais tarde Alfredo Monteiro veio afirmar que tudo se tratava duma gigantesca cabala e que o processo afinal até tinha sido arquivado, e afirmou-o mesmo sem que se lhe tivesse perguntado nada. Consultámos o processo e afinal este tinha sido arquivado sim, mas depois do Sr. Presidente se ter dado por culpado e de ter, por isso, pago a respectiva multa.
Estes são apenas exemplos do hábito de mentir deste executivo camarário, outros existem, como também existem outros exemplos da falta de seriedade com que a oposição é tratada. A omissão de resposta aos requerimentos apresentados pelos Vereadores Socialistas é exemplar nesta matéria, a Lei estatuí que é obrigação do Presidente da Câmara responder, no prazo de dez dias, aos requerimentos que lhe são apresentados. Apresentei requerimentos há anos que continuam por responder.
Mas há mais, a seriedade é exigida nos actos mas também é exigível do ponto de vista intelectual. A deliberação 1/2008 da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), sobre publicações periódicas autárquicas, no Seixal será o Boletim Municipal, estabelece que: “Tratando-se de publicações de titularidade pública e sujeitas ao respeito pelo princípio do pluralismo, encontram-se obrigadas a veicular a expressão das diferentes forças e sensibilidades políticas que integram os órgãos autárquicos.” O executivo comunista diz que não é esse o seu entendimento mas não explicita qual é o seu. O mesmo se passa quanto à cobrança da taxa de publicidade, sobre suportes afixados em propriedade particular (qualquer toldo ou reclamo de estabelecimento comercial por exemplo), existem já vários acórdãos do Tribunal Constitucional que consideram esta taxa inconstitucional, na medida em que nenhum serviço é prestado ao cidadão, também aqui o PCP/CDU se limita a dizer que não é este o seu entendimento… O que convenhamos até dá vontade de rir, porque nesta democracia do Seixal o executivo comunista até se atreve, como se isso fosse normal, a ter opiniões diferentes dos juízes do Tribunal Constitucional! Sobre esta matéria apresentámos há vários meses um (mais um) requerimento ao Sr. Presidente da Câmara, é claro que não obteve resposta, porque uma coisa é dizer estes disparates outra coisa é escrevê-los.
Em conclusão, o diálogo, nestas circunstâncias, revela-se um exercício difícil.


NS - Como analisa o trabalho da maioria CDU?

SC – Propaganda sem obra.
Vejamos, há pouco falava no Boletim Municipal, só este instrumento de propaganda do regime custa aos munícipes do Seixal perto de milhão e meio de euros por ano.
No gabinete de imprensa e relações públicas trabalham treze pessoas, na divisão de comunicação social e relações públicas trabalham mais catorze e no sector de apoio gráfico e edições mais catorze, naturalmente que todo este investimento tem que ter algum retorno.
Esse retorno é a criação e manutenção do mito da boa gestão CDU.
Mas o que temos na verdade é um gigante com pés de barro, o concelho do Seixal é, neste momento, o oitavo maior concelho do país e o maior concelho a Sul do Tejo. Quer isto dizer que o Seixal é o maior de todos os concelhos dos Distritos de Setúbal, Portalegre, Évora, Beja e Faro.

NS - E o dos vereadores da oposição?

SC – Naturalmente não vou avaliar o trabalho dos Vereadores Socialistas que para mim são os melhores mas admito que nessa avaliação entram razões emotivas. Quanto aos Vereadores Paulo Edson e Luis Cordeiro destaco em primeiro lugar a boa relação pessoal que desenvolvemos, é salutar que assim aconteça em política. Quanto ao mais é cedo para balanços, não se entra na administração duma casa com um orçamento de 120 milhões de euros e passados seis meses já se realizou o trabalho necessário a uma correcta avaliação do nosso desempenho. Ainda para mais com a falta de apoio de que os Vereadores dispõem.
A actividade de Vereador da oposição deve ser das mais ingratas que se pode desempenhar ao serviço da causa democrática. Para ser compensado com uma senha de setenta e poucos euros (antes de impostos), brindam-nos com milhares de folhas de documentação, sobre as mais variadas matérias, sem qualquer apoio dos serviços técnicos e, até, com alguma relutância por parte dos responsáveis no fornecimento de informação clara. Para culminar a cereja em cima do bolo é que ainda podemos ser responsabilizados pessoal e financeiramente pelas decisões que tomamos. Dito assim pode até parecer normal mas conto algo que se passou comigo para ilustrar a situação: Tinha tomado posse há ainda muito pouco tempo, nem instalado estava, recebi uma carta do Tribunal Administrativo e Fiscal de Almada, por defeito profissional não estranhei… Ao abrir estranhei e muito, tinha sido multado em 20€ por dia, até à situação estar regularizada, por causa duma deliberação que a Câmara deveria ter tomado e ainda não o tinha feito. Ora eu não fazia ideia do que se tratava mas, pior, não podia fazer nada para resolver a situação!
O actual modelo de funcionamento dos municípios não faz qualquer sentido, a oposição não deve ser feita dentro dos órgãos executivos. Executivos da confiança do presidente e Assembleias Municipais com poderes reforçados são o caminho. É aliás esta a proposta que o PS defende, aguardamos pelos outros partidos, já que, sobre esta matéria, a deliberação obriga a uma maioria qualificada.


NS - Na sua opinião quais são as carências mais sentidas nas seis freguesias do concelho de Seixal?

SC – As necessidades da população do Seixal estão identificadas, temos aliás estudos sobre o tema que confirmam o que dizemos. A Câmara também encomendou uma sondagem sobre esta temática em Agosto passado, já pedi acesso ao documento mas ainda não obtive qualquer resposta. É estranho porque a dois meses das eleições quem normalmente encomenda sondagens são os partidos…
O grande problema sentido pelas populações, identificado transversalmente em todas as freguesias, é o sentimento de insegurança. E este sentimento tem menos a ver com polícia e mais que ver com correctas políticas de planeamento urbano. A construção de guetos, a falta de política económica que promova o emprego, a falta de iluminação, a politica de consentimento, e às vezes até de incentivo, do vandalismo como é o caso dos grafities gera um clima propício à violência que naturalmente descamba em mais violência. O Governo está a fazer a sua parte, criou a divisão da PSP do Seixal, num quadro mais vasto de reorganização das forças de segurança do continente e está a construir as novas esquadras da quinta do Cabral/Arrentela e de Santa Marta de Corroios. O que tem a ver com planeamento urbano é com a autarquia. Mas é lamentável que a Câmara não tenha ainda conseguido alojar as pessoas que recenseou em 1993 nos bairros da Jamaica e no bairro de barracas de Santa Marta, quando o problema não se mata na raiz ele aumenta, toda a gente sabe isso.
Um segundo problema transversal a todas as freguesias é o trânsito e o estacionamento. Há quanto tempo não constrói um km de estrada nova a autarquia? É evidente que não se podem autorizar novas construções a esmo, contando só com os arruamentos das novas urbanizações, é preciso criar alternativas. Até ver parece que os responsáveis camarários julgam que o problema do trânsito no concelho se resolve com a colocação de lombas e a criação de rotundas, é preciso mais.
É preciso exigir a construção do novo nó da A2 junto ao Muxito, a rápida execução da ponte Seixal Barreiro e do IC32 no troço entre Coina e o Funchalinho. Assim como são necessários novos acessos a Fernão Ferro e Pinhal dos Frades.
Por fim terminar a vergonha que é, para a Câmara Municipal do Seixal, a alternativa à EN10 é não uma urgência mas uma emergência.
Também na questão do estacionamento é preciso mais, a autarquia criou um grupo de trabalho para estudar o tema há alguns anos, se produziu algo até ao momento não fomos informados. Parece-me evidente que a criação de parques de estacionamento subterrâneos nas zonas de maior densidade urbana não pode mais ser adiada.
Identificamos ainda uma necessidade de melhoramento dos transportes públicos na freguesia de Amora, o que poderá acontecer através da concretização da segunda fase do Metro Sul do Tejo, que já está em andamento. Temos identificado o alerta para o estado dos arruamentos e estradas na freguesia de Corroios. E ainda estamos atentos às carências dos dois itens atrás referenciados, na freguesia do Seixal.
A necessidade da criação de espaços verdes de qualidade e que possam ser usufruídos pela população é outra prioridade para o PS, por isso propusemos a criação dum grande parque urbano e corredor ecológico que ligasse a Baía do Seixal à Lagoa de Albufeira.


NS - E quanto ao planeamento urbano…

SC – O planeamento urbano é inexistente e quando não é inexistente é saloio o que ainda é pior. A última moda da autarquia são os Planos de Pormenor, não sei porquê porque se o PDM está quase a ser aprovado, como é dito, resolveria todos os problemas que estes planos de pormenor pretendem resolver. Dou-lhe exemplos, urbanismo inexistente é toda a freguesia de Fernão Ferro. Mas também existem áreas urbanas de génese ilegal nas outras freguesias do concelho, portanto uma vastíssima área do território urbanizado, foi-o sem qualquer programa. Problema que ainda não está resolvido e a solução dos obstáculos levantados às AUGI, que são um grande negócio para alguns, arrasta-se. A situação era semelhante no concelho de Loures quando o PS chegou ao poder, hoje o problema das AUGI nesse concelho é já residual.
Mas urbanismo é ter a capacidade de prever os equipamentos que são precisos, o Seixal pouco tem. Qualquer terra de província tem um pavilhão desportivo e uma piscina… A freguesia da Amora luta há anos por um pavilhão e é maior que a maior parte dos concelhos deste país. Assim como Paio Pires aguarda há anos pela sua piscina e de certeza que não há nenhum concelho neste país, com a dimensão daquela freguesia, que não tenha já há muito construído a sua piscina.
Mas mais grave até, o mesmo se passa com as escolas, os nossos filhos são forçados ao flagelo do turno duplo, algo já praticamente inexistente no nosso país e não existem jardins-de-infância. De acordo com a carta educativa municipal faltam construir no concelho mais de vinte escolas.
Saloice é por exemplo querer construir uma torre de 17 andares no Fogueteiro porque marca o skyline… É o que prevê o plano de pormenor da Torre da Marinha e foi a explicação que me foi dada em reunião de trabalho do executivo municipal.
Mas há mais, à pouco tempo fizeram-me chegar um documento da faculdade de arquitectura de Lisboa, tratava-se da descrição do case-study de Santa Marta do Pinhal que é estudado naquela faculdade como aquilo que não se deve fazer em urbanismo, acho que está tudo dito!

4 comentários:

Anónimo disse...

Samuel essa de meteres a foto do Obama e da Filipa Castro foi muito mazinha

Anónimo disse...

"Autopromoçã"!!!!
Leva trê e paga um...
Para mim é tdo moscas.

Anónimo disse...

Sr. vereador Samuel!
Gostaria de saber se o jornalista, lhe tivesse colocado as seguintes questões, o que responderia?
Qual o seu comentário, acerca da impugnação das eleições internas em Fernão Ferro, por varias irregularidades cometidas, pela única lista presente?
Segundo informações, um dos principais intervenientes nas irregularidades, no não comprimento dos estatutos do seu partido, foi o seu camarada Sardinha, a exemplo da Augi a que preside este seu camarada, por onde passa só comete irregularidades.
Não se sente incomodado, por fazer parte do seu partido um elemento que só comete irregularidades, manchando dessa forma a própria imagem do PS local?
É verdade que a impugnação feita ao acto eleitoral em Fernão Ferro, foi aceite por parte da federação do PS de Setúbal, mandando repetir o acto eleitoral?

82852 disse...

Ó camarada diga lá que irregularidades foram essas, que gravidade foi essa, que dá logo para incriminar um dos mais antigos e prestigiados militantes PS do Seixal.Você saiu-me cá uma peçs.

Google