OS BOGAS


In jornal “O Mundo”

Há alguns dias numa qualquer assembleia republicana usaram da palavra, entre outros, o sr. Boga, carpinteiro de barcos no Seixal e o sr. dr. Pereira Osório, ex-presidente do Senado e antigo Governador Civil do Porto. Tanto um como outro fizeram – e dir-se-ia até que à compita – afirmações que teriam feito escândalo se em Portugal fosse já possível, em matéria de dislate dizer ou fazer qualquer coisa, que consiga arripiar a sensibilidade seja de quem for. O sr. dr. Pereira Osório que tem sobre o problema religioso convicções que o obrigam a intimas afinidades filosóficas com o sr. dr. Almeida Ribeiro, disse que Jesus Cristo era um afigura de horror. O sr. Boga, esse não sei bem o que disse. Sei apenas que disse uma asneira grossa, porque de resto o sr. Boga expele asneiras tão natural e necessariamente como a baleia expele a água. Mas fosse qual fosse a patacoada com que o sr. Boga mimoseou o auditório, o que se sabe é que, rematando-a, o meu exaltado correligionário teve este arranco:
- E quem não pensar assim não é republicano!
Ora tudo isto é grave. Estamos fartos de ouvir e ver fazer asneiras. Pode mesmo dizer-se que já não absorvemos oxigénio mas tolices de tal maneira a atmosfera em que respiramos anda saturada de asneiras postas a correr. Não há na constituição artigo nenhum que proíba o sr. Boga ou o sr. Osório de dizer parvoiçadas? Não há. A asneira é livre. Mas é evidente que a saúde pública tem de ser defendida e que a proliferação de asneira, inquinando e devastando a simplicidade do espírito público está tomando entre nós, proporções de um flagelo.
Se me referi ao cidadão Boga e ao cidadão Pereira Osório é, simplesmente, porque tanto um como outro, valendo intrinsecamente o mesmo, constituem na singularidade do seu pitoresco, um símbolo expressivo da pavorosa selecção às avessas, que está fazendo da nossa sociedade política uma detestável caricatura da democracia e da vida pública portuguesa o vazadouro de todas as nulidades profissionais que a vaidade exibicionista ou o apetite mandibular articulam e põem em actividade febricitante. Que é o Boga? O Boga é um Pereira Osório sem óculos, sem frack e sem polainas que no Seixal preside, provavelmente, a uma comissão política local e nos congressos e reuniões do seu partido usa da palavra, ao abrigo da lei orgânica, para vomitar sandices descompassadas de que uma parte da assembleia sorri complacente, que outra parte ouve com mole indiferença e a que o resto, finalmente, tributa para confirmar a boutade célebre de Boileau - a veemência dos seus aplausos.
O caso é este: um Boga encontra sempre um tipo ainda mais Boga que sinceramente o admira. Adiante. Que é o sr. Pereira Osório? O sr. Pereira Osório é um Boga que usa óculos, frack, polainas e que, em vez de presidir simplesmente a uma comissão política da Outra Banda, já presidiu ao Senado. Fazendo o paralelo entre o que disse o Boga e o que disse o Osório chega-se, irremissivelmente, a esta conclusão matematicamente certa: O Boga e o dr. Osório não se diferenciam senão por meras aparências – os óculos, o frack, as polainas – e no fim de contas, isto é dos Bogas.
Ora é precisamente contra o triunfo e o tripudio dos bogas na nossa democracia que eu levanto o meu protesto, em que não há a mínima intenção de agravo pessoal para nenhum deles – que pessoalmente quero crer que sejam excelentes pessoas – mas que os mais elementares escrúpulos da inteligência pleníssimamente justificam. Há um axioma que é indispensável entranhar no espírito da nossa incipiente democracia: é que não basta ter um frack para se poder exercer funções e cargos cujo acesso a democracia abriu, não a todos que porventura os apeteçam, mas a todos que para o seu desempenho possuam, venham de onde vierem, e seja qual for a sua origem, filho de burguês ou filho de cavador.
Quem exerce as funções em que o dr. Pereira Osório foi investido não tem o direito de soltar parvoiçadas como essa a que aludi e a que um jornal republicano da noite – honra lhe seja! – logo aplicou o correctivo de uma justíssima reprimenda. Mas se ao dr. Pereira Osório não podemos reconhecer esse direito – que S. Exa. Talvez sinceramente tenha também impugnado – a verdade é que se em Portugal houvesse uma democracia verdadeira, e não um grosseiro arremedo do que por tal se deve entender, nunca eu teria que me ocupar da sua individualidade, porque na hierarquia política jamais Sua Exa. teria conseguido ir além duma inofensiva administração concelhia. A Democracia é a confusão dos que valem com os que não valem, o tumulto, a promiscuidade, a mélee. Se o fosse, a tese de Oh Maurras estava certa e por mais tilitantes que para a nossa sensibilidade fossem as aspirações democráticas, é evidente que a democracia poderia ter por si toda a gente menos os que sabem disciplinar aos ditames da razão e da inteligência criando a ordem dentro de si mesmos, os impulsos mais profundos e as inspirações mais palpitantes. Mas não. A democracia não é isso. E é justamente porque ela não é isso, nem pode nisso converter-se, que eu solto hoje, aqui, este grito:
- Abaixo os Bogas!


Bourbon e Meneses

2 comentários:

Bruno Barata disse...

ai a democracia, tão frágil... que dá maiorias absolutas, através de 20% de votos da população do concelho do Seixal.
"A Democracia é a confusão dos que valem com os que não valem, o tumulto, a promiscuidade, a mélee."
Será que Bourbon e Meneses está atento ao Seixal actual?


Na suposta democracia Seixalense aplica-se esta longínqua e assertiva citação:
"O sufrágio universal, a mais monstruosa e a mais iníqua das tiranias, pois a força do número é a mais brutal das forças, não tendo ao seu lado nem a audácia, nem o talento " (P. Bourget)

Velas do Tejo disse...

O actual presidente da Junta de Freguesia do Seixal é descendente do referido "Bogas".

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