O célebre Boga – Uma entrevista Sensacional

Grande trunfo democrático ouvido pel’ “A Época”

Os senhores lembram-se, por acaso, do Boga?
O Boga é aquele sóba democrático do Seixal que o jornalista sr. Bourbon e Meneses imortalizou nas colunas d’O Mundo.
O Boga é o grande trunfo democrático, amigo querido, do sr. António Maria da Silva, a quem dizia, quando da inauguração do troço Seixal-Barreiro:
- Tu és um gajo!... És o único que tem levado isto direito!
O Boga…
Lembram-se, não é verdade?
Ora bem! Resolveu cá a gazeta que o Boga fosse ouvido, que muito deviam valer as suas opiniões. Nós cá, em matéria política, limitamo-nos a isto: ouvir gregos e troianos, para conhecimento do leitor. D’esta vez a sorte coube ao sr. Boga. E vai daí o repórter fez-se a caminho do Seixal.
No caminho ia pensando no modus faciendi e quem o observasse durante a viagem vê-lo-ia absorto, preocupado, medindo a largos passos o convés: andava a elaborar in mente a abertura da entrevista.
Primeiro, descreveria o Boga:
- Alto, forte, ombros largos, grandes bigodeiras, o Boga…
Depois…
Mas o leitor naturalmente o que quer saber é do resultado da minha missão, não é isso?
Ora então vamos lá.
Mal cheguei ao Seixal inquiri, logo, pelo entrevistado.
Soube-o morador em determinada ruela n.º 5.
E avancei para o local, com certa prudência, que (isto aqui para nós) eu não ia lá muito tranquilo.
Em boa alhada me meti, não haja dúvidas, ia eu pensando. Redactor d´A Época, o menos que me pode acontecer é apanhar uma boa dose de pancadaria e… um banho forçado.
Mas, ia-me embora sem a entrevista…
Houve uma coisa cá dentro que me incitou:
- Sús, Avante.! Um homem é um homem e um gato é um bicho.
E bati à porta da habitação indicada.
Um rosto deliciosamente lindo espreitou por uma janela e uma vozinha de cristal perguntou:
- O que queria?
- Ó menina, o sr. Boga está?
- Está sim!
E para dentro.:
- Ó papá, estão aqui à sua procura.
A porta da rua abriu-se, uma voz mandou-me subir e eu subi, impávido.
No cimo das escadas, com um sorriso acolhedor o sr. Boga esperava.
Cahi das nuvens…
Então era aquele cinco reis de gente o pavoroso Boga.
- Tenho a honra de cumprimentar o sr. Boga? Disse afável.
E logo ele:
- Eu mesmo, o Boga do Seixal, bem conhecido em Lisboa e arredores.
- É que eu sou dos jornaes…
- Ah! Já sei é da imprensa.
Vem naturalmente entrevistar-me por causa dos melhoramentos?
- É isso mesmo – titubiei, satisfeito do caminho que as coisas levavam.
O sr. Boga ordenou para dentro que lhe dessem a boina e o rebate que estava em cima da cama desceu à rua.
Só então (as escadas eram escuras) é que distingui bem a fisionomia.
O meu entrevistado é de estatura meã, seus cincoenta ano, testa acanhada, rosto em bico semeado de pêlos ralos. Sobre os olhos, uns olhos raiados de sangue e vesgos, horrivelmente vesgos, caía-lhe umas farripas de cabelo, mal escondidas pela boina.
- Ora vamos a isto – dizia o sr. Boga – O sr. vê aquele poço? É um melhoramento da nossa Câmara (de que eu sou presidente). Se quer vamos ao depósito. E seguimos por uma rua, metemos à estrada e encontrámo-nos junto do tal depósito. Aqui, o sr. Boga deu largas ao seu lirismo de vereador:-
A água vae lá para baixo, por meio de uma mantca… Aquela rua vai ser alargada…
Bem me importava a mim… Por isso atalhei:
- O peor é se a política prejudica…
Foi como se eu chegasse fogo a um rastilho.
O sr. Boga parecia outro, congestionado, com os olhos a saltar pelas orbitas…
- A jasuitada é que estragava tudo. Ele bem trabalhava para a exterminar mas a maldita aparecia sempre. O repórter não se lembrava do caso do Lata?
Isso é que ele é um malandro! Eu que avaliasse pelo que me ia contar.
E disse:
- Quando foi ahi dumas eleições e eu entrei na sala do acto eleitoral, lá porque dei um Viva à República e um Abaixo a Reacção já aquele malandro me perseguiu.
A Jasuitada! Ali na vila andava agora com as patas de fora, mas não faria minga, que o Parocho – um grande jasuita – mais dia, menos dia, apanhava uma data de cavalo-marinho. Que ainda havia reaccionários maiores. Não conhecia eu um tal Carvalho da quinta da Amora? Esse era o jasuita-mor. E o filho então inda era peor que o pae.
Encostou-se à borda do poço, cerca de nós e disse com o seu quê de desatento:
- Esse sr. Bourbon e Meneses disse que era mais republicano que eu. Tem graça!
E animado:
Quando ele ainda andava de cueiros já eu comia peixe-espada de mancupa.
Uma vez n’um comiço presidido pelo Elias e em que falou esse grande cidadão Magalhães Lima, à sahida apanhei uma pranchada nas costas…
Um conhecimento do sr. Boga que passou, a certa altura, cumprimentou-o decerto por ironia, com salve-o Deus.
O interpelado foi aos arames.
- O Deus que o guardasse para ele!
Ora essa! Não queria nada com o patrão dos jasuítas o chefe dos santos…
E para mim:
- Eu cá sempre fui assim… Nunca poude vêr a padralhada! E é que minha mãe levou enterro civil. Infelizmente tenho um irmão que não é das minhas ideias. Coitado, é munto bruto…
De repente, tirando a carteira do bolso:
- Já me esquecia; aqui tem o meu nome todo para pôr no jornal.
E entregou-me um cartão:
JOAQUIM DOS SANTOS BOGA
Carpinteiro naval
As ironias do acaso: o Joaquim dos Santos Boga a dizer cobras e lagartos…
E a entrevista prosseguiu.
O Boga falou do sr. Cunha Leal:
- São uns intrujões. Olhe esse Cunha Leal que dizia que mandava buscar o dinheiro às barras dos banqueiros com Guarda Republicana!
O que ele se quis foi governar…
E quasi em confidência…
- Que ele, aqui para nós, o Partido Democrático também tem os seus crimesinhos. Mas sempre é o Partido da força.Ele há para ahí um Partido chamado Radical e dois oficiaes até me convidaram para ele. Radicaes já nós somos.
E repetiu:
- Cá o meu sempre é o partido da força. Quanto a uns taes nacionalistas ninguém lhes liga nenhuma.
Aqui no Seixal, o mando é meu e do meu compadre. Já era assim quando eu era presidente da parochia.
Falando do chefe do Governo:
- Aquele diabo não é mau rapaz, mas não tem seguido os meus conselhos. Ele quando esteve aqui botou-me a mão pelo hombro, que já se sabe, deve-me muitos favores, mas - insistiu – não ouviu os meus conselhos.
Eu bem lhe disse: - António, toma tento, esmaga a Reacção, mas aquele diabo parece que tem os olhos tapados. Quem lhe vale, aqui, sou eu. Há uns tempos, quando fizeram uma manifestação dos Jasuitas, que fizeram uma missa, depois no acto eleitoral é que se viram os homens. Eu com os coxos e aleijados consegui arranjar mais vinte e cinco votos! Ainda se quizeram atirar a mim mas puxei da pistola e quatro ou cinco saltaram a muralha.
Não, não vae, o António Maria não vai pelo bom caminho.
…/…
A hora do embarque vinha-se aproximando e com franqueza estava ancioso por embarcar…
O meu entrevistado regougou ainda uns impropérios contra a reacção, ameaças de cavalo-marinho e não sei que mais…
Mal o barco atracou, saltei para ele e… cheguei a Lisboa são e salvo.

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