O Estaleiro da Fidalga

A fundação da Quinta da Fidalga (Seixal) remonta ao século XV, estando historicamente associada a Paulo da Gama, o irmão de Vasco da Gama, que se fixou no Seixal para assistir à construção das caravelas que supostamente o levariam até à Índia.
A Quinta na sua grandiosidade, além de labirínticos jardins, conta com um sofisticado sistema de rega, distinguindo-se também pelo grande Lago de Maré, que constitui um monumento raro ou quase único na arquitectura hidráulica europeia.
O palacete, grande e robusto, assemelha-se a uma grande casa de campo, tendo acolhido durante alguns largos meses Paulo da Gama e, posteriormente, o seu irmão, Vasco da Gama.
Paulo da Gama, que por uns meses escolheu a Fidalga para habitar, fê-lo porque em frente à Quinta existia um estaleiro naval, local que Paulo gostava de frequentar de modo a poder acompanhar o desenvolvimento das suas construções navais que o levariam à Índia. Esse estaleiro ganhou o nome da Quinta porque lhe pertencia. Estavamos, então, na época dos Descobrimentos.
Passando para o nosso século, importa mencionar o que se passou com aquele legado histórico.
Há mais de um ano (Fevereiro de 2008), altura em que se iniciaram as obras na zona que separa a Quinta da Fidalga da Baía do Seixal, houve alguém que ordenou destruir o Estaleiro da Fidalga. Se para muitos a acção nada lhes dirá, o facto é que essa atitude gerou alguma polémica, pela repentina e inusitada destruição. Eu fui uma dessas vozes discordantes, entre muitas outras que se manifestaram, contra aquilo que em nosso entender era - e foi - um atentado ao património histórico do nosso concelho, não pela edificação em si, mas pela área onde esse se situava. A simples hipótese de destinar aquele espaço para um parque temático dos Descobrimentos, com os devidos meios de apoio, teria sido melhor solução. Até porque, o estaleiro em si era apenas representativo, antigamente os barcos eram construídos na praia, logo, o local, esse sim, seria meritório preservar. Assim, o desaparecimento do estaleiro, com a correspondente remodelação da área onde este se situava, levou consigo toda uma história de Descobrimentos que lhe estava inerente. Aqui, teria sido positivo acautelar o que de turístico por cá se tem (ou tinha, no caso), pena é que quem gere o Seixal não pensasse assim.
Além de não bastar essa errada decisão, acontece que, a zona submetida a arranjo, se encontra assim desde Fevereiro de 2008 - em obras! Mas será que é necessário tanto tempo para se reconstruir uma calçada e respectivos passeios? Até dou como atenuante o facto da demora se dever também à ligação das condutas de passagem de águas que asseguram o bom funcionamento entre a Baía e o Lago de Maré que já aqui referi, com a instalação das respectivas manilhas, mantendo a função do referido lago. Mas mesmo assim, é demais.
Este atraso na obra é, todavia, pouco preocupante para a autarquia, visto que terá uma obra a terminar mesmo na altura das eleições autárquicas - incutindo na opinião pública a ideia errada de obra camarária, quando na realidade quem a financia é o A. Silva & Silva.
Resumindo:
a) o estaleiro e local podiam ter valor histórico, mas ninguém teve tempo para o aquilatar pois a demolição foi feita num ápice;
b) a zona pedonal e rodoviária encontram-se há mais de um ano (Fev. 2008) em arranjos;
c) a obra que está a ser financiada pelo A. Silva & Silva pretende causar na população a sensação de obra feita pela Câmara (quando os dinheiros vêm do empreiteiro), com a inauguração em cima da altura de campanha eleitoral a dar ainda mais essa ideia, tal como já fizeram há quatro anos com o passeio da zona ribeirinha da Amora (suportada pelo Leclerc) e do Seixal (suportada pelo A. Silva & Silva).

Resta-me apenas recordar que o PCP, à boa maneira de todas as ideologias absolutistas, sente uma necessidade enorme de marcar o seu tempo com edificações que sejam representativas do seu legado. A intervenção do poder político é um meio de mostrar a sua força através da intervenção no espaço público. Nesse sentido, é descurada a preocupação pela preservação de património, resultando daí a indiferença na destruição do existente. Chama-se a isto PROPAGANDA. É pena, mas é assim mal, que vai o Seixal.

Este é o post desta semana que, juntamente com os comentários (selecção editorial), terá posterior publicação no jornal «Comércio do Seixal e Sesimbra». Como habitualmente poderá também comentar no blogue de Paulo Edson Cunha, meu amigo e adversário, na disputa pela Presidência da Câmara Municipal do Seixal.

4 comentários:

hkt disse...

Muito Bem!! Não posso deixar de concordar com tudo o que escreveu.

Anónimo disse...

Em ano de eleições é o vale tudo, ele é distribuir flores à porta da igreja, ele é o mestre da banda, é o medo da derrota que o aflige, tanto dinheiro mal gasto nem parecendo que o país está a atravessar um profunda e grave crise. Haja paciência para aturar isto!

Anónimo disse...

Foi decretada a declaração de Utilidade Pública à Associação Náutica do Seixal. Parabéns. Pois, por cá nem tudo na mesma.

http://viverseixal.blogspot.com/2009/04/entidades-recebem-declaracao-de.html

Anónimo disse...

E para que conste ja la esta o pontão para servir os barcos dos amigos que foram corridos do seixal por abusos no pontão da ANS.

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