Começou há um ano

O tema não é inédito, nem sequer aqui no Blog, mas tendo em conta o primeiro aniversário desta realidade e a maneira como nos afecta a todos, trago-o de novo à ribalta, desta vez para receber os comentários dos leitores destinados a serem publicados no jornal Comércio do Seixal e Sesimbra.

1.Imagine que um conjunto de pessoas (7,2 milhões de famílias, o que rondará os 30 milhões de pessoas) a quem nunca deveria ter sido concedido empréstimo para habitação decide mostrar o porquê de não serem merecedoras desse empréstimo, deixando de o pagar.

2.Imagine que o banco executa as hipotecas sobre essas casas.
3.Imagine que o número de execuções de hipotecas é tão elevado, que o preço das casas cai a pique, porque não há gente suficiente interessada em comprá-las. Por esse motivo, os bancos só conseguem reaver uma parte relativamente modesta do que emprestaram, o que começa a deixá-los em apuros, dado os valores envolvidos.
4.Imagine que há ainda uns milhões de pessoas que têm vindo a pagar os empréstimos, mas cujo valor da garantia que deram ao banco (o valor da casa), cai a pique, pelos motivos indicados no ponto 3. Ou seja: se deixam de pagar, o banco está tramado.
5.Tenha em conta que a desvalorização das casas pelos motivos indicados no ponto 3 leva, inevitavelmente, a uma crise profunda no sector da construção civil.
6. Imagine que esses milhões de pessoas com empréstimos por pagar trabalham na indústria da construção civil, ou numa indústria cuja prosperidade depende da prosperidade do sector da construção civil. Ou ainda numa industria cuja prosperidade depende da prosperidade de uma industria cuja prosperidade depende, por sua vez, da prosperidade do sector da construção civil. Sinta-se à vontade para acrescentar mais elos a esta cadeia. Eles existem.
7.Imagine agora que, por causa disso, essas pessoas perdem o emprego e deixam de pagar o empréstimo das casas, piorando bastante o já negro cenário indicado no ponto 3.
8.Imagine ainda que há pessoas que até nem perdem o emprego e podem continuar a pagar, mas que não acham muita piada ao facto de estarem a pagar um empréstimo de, vá lá, 200000?, por uma casa que agora já não vale mais de 50000?.
9.Imagine que essas pessoas, numa análise custo/benefício, pensam: que se lixe. O banco que fique com a batata quente. Vou deixar de pagar o empréstimo, porque sinto que estou a ser levado.
10.Imagine que o fenómeno é tão generalizado que muitos bancos não conseguem fazer face a tamanhas perdas, havendo o risco real de milhões de pessoas perderem os seus depósitos.
11.Imagine ainda que esses bancos, para emprestarem dinheiro aos seus clientes, foram pedir dinheiro emprestado a outros bancos, bancos esses que correm o inesperado risco de ficar, igualmente, a arder com enormes perdas.
12.Finalmente, imagine que isto acontece num país com um défice orçamental tremendo, e no qual a ocorrência de uma recessão, que leva a uma baixa das receitas fiscais, seria basicamente a morte do artista (e do Dolar), pois este deixaria de conseguir pagar os empréstimos resultantes da existência de dívidas (défice), existindo o sério risco de os títulos do tesouro americanos desvalorizarem a pique, assim como se desvalorizam ainda mais as poupanças das pessoas (singulares e colectivas) que têm depósitos em Dólares Americanos.

Se conseguir englobar todas estas imagens no seu cérebro, só me resta dizer-lhe uma coisa: Welcome to the USA!

Como atinge isto a Europa? Muitos dos bancos que emprestaram dinheiro a bancos americanos para estes, por sua vez emprestarem aos clientes, são Europeus (e asiáticos, africanos...).
Na hipótese remota de esta situação não ter impacto no sistema financeiro europeu (bem vistas as coisas, já teve, com a crise do Northern Rock, o que torna bastante provável que volte a ter...), não se esqueça que bastantes indústrias mencionadas no ponto 6 encontram-se no Velho Continente. Nem sonhe que a Europa passará ao lado de uma crise americana de tal dimensão. Impossível!

A título de curiosidade: Vamos ver se o FMI vai assumir as rédeas do governo americano, tal como tem feito em tantos outros países, nomeadamente em Portugal, no período pós-revolucionário.

Tudo isto começou há um ano, ainda ninguém sabe quando e como vai acabar!

8 comentários:

Anónimo disse...

O Zé Povinho tem que enfrentar a dura realidade... vivemos acima das nossas posses. O Português pede ao banco o máximo que pode, descurando a probabilidade das taxas de juro subirem e como tal a renda da casa tambem, ficando com algumas dificuldades em pagar. Os ordenados não sobem, o custo de vida agrava-se. De quem é a culpa... do português que vive numa miragem... somos um pais que só não é do terceiro mundo porque vive na Europa. Tudo e todos nos ultrapassam. Telnovelas, futebol, Algarve, continuamos a levar o carro para o empregao em vez de utilizar os transportes, não se vota com a desculpa que não vale a pena porque são todos iguais, não nos preocupamos, os outros que resolvam... basta ver os nossos "telejornais" ali está espelhado as noticias que nos preocupam. Não sabemos nem nos preocupa o que se passa ao nosso redor.

Jorge Pieta disse...

O presidente do Citigroup, Win Bischoff, lançou o alerta: o preço das casas no Reino Unido e nos EUA vai continuar em queda até 2011. Em entrevista à BBC, o responsável de um dos maiores bancos mundiais admitiu que a estimativa aponta para uma estabilização do mercado em dois anos e um agravamento do crédito malparado em 2009. Como se pode ver... más noticias para os Portugueses.

Anónimo disse...

Assim vai o pais... os cabecilhas e quem tem dinheiro escapa-se sempre

"Montanha pariu 3 ratos EMPRESÁRIOS E SEGURANÇAS ABSOLVIDOS EM ESQUEMA DE CARTÕES DE CRÉDITO

Valdemar Pinheiro

Afinal, a montanha pariu só...
três ratos no caso de um esquema de falsificação de cartões de crédito que, segundo o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa, envolvia, em associação criminosa, 22 arguidos, alguns deles empresários e seguranças da noite.
A verdade é que dos 22 arguidos suspeitos de simularem transacções nos terminais (POS) instalados nos seus estabelecimentos e que, de acordo com as investigações, ganhavam entre 30 e 50 por cento por cada transacção, apenas três foram condenados pela 3ª Vara Criminal de Lisboa, na Boa-Hora.
Foram eles Paulo Correia, mediador imobiliário de 43 anos, da região dê Sintra, e Augusto Ribeiro, um angolano de 35 anos, com domicílio no Reino Unido, ambos a quatro anos e meio, e Henrique Ondo, um estudante de 25 anos, nascido em S. Petersburgo, na Rússia, mas naturalizado britânico há cinco anos.
Os três arguidos, que eram os lideres e ficavam com 50 a 70 por cento do valor das transacções, porém, acabaram por sair em liberdade na sexta-feira, no final da leitura do acórdão, por lhes ter sido descontado o tempo em que estiveram em prisão preventiva.
O Tribunal deu como provados os crimes de contrafacção, burla informática e falsificação de documento.
Ficou por provar o crime de associação criminosa.
Os empresários e seguranças, à semelhança de outros arguidos, vinham acusados de passagem de título equiparado a moeda em concerto com o falsificador e burla informática. As acusações não ficaram provadas junto do colectivo, que considerou ter havido tão-somente uma utilização irregular .
A investigação da Polícia Judiciária tinha revelado que os crimes desenvolveram-se entre 2005 e 2006 e apontado para que todos os arguidos tinham agido na mira de ganhar dinheiro fácil, defraudando a Unicre e o Banco Português de Negócios.


[factos]

PROVAS. O colectivo não deu como provado que a Unicre a o Banco Português de Negócios tenham sido defraudados 1 pois apenas como intermediárias na utilizações de cartões de crédito e acabaram por cobrar os montantes junto das instituições financeiras que emitiram os cartões usados. Para além dos empresários e seguranças, a fraude envolvida gente ligada a outros ramos de actividade, da restauração à ourivesaria ou do comércio de roupas aos artigos desportivos e electrónicos.

Anónimo disse...

Os sinais da crise estão por toda a economia. No mês passado ficou estagnada, o que não acontecia desde finais de 2003.
A crise chegou a Portugal e ganhará força em 2009, alastrando também ao mercado de trabalho, lamentam os peritos.

A tese que corre entre os economistas é que a semana da Páscoa, que este ano calhou em Março, foi decisiva para evitar a recessão técnica no primeiro trimestre. O PIB sofreu uma quebra nos primeiros três meses do ano (-0,2% em termos trimestrais), mas o segundo trimestre, que costuma ser mais fraco porque tem menos dias úteis (com Páscoa), acabou por sair a ganhar este ano.

As estatísticas mostram o impacto negativo da crise nos indicadores. Os mais recentes, publicados pelo Banco de Portugal na sexta-feira, mostram que em Junho a actividade económica praticamente não evoluiu face ao ano anterior: o crescimento homólogo do indicador foi de 0,1%. Ainda de acordo com o banco central, o consumo privado, variável que vale dois terços da economia, está estagnado.

Ambos os barómetros estão nos níveis mais baixos desde finais de 2003, ano de recessão, estando a cair de forma persistente desde Agosto do ano passado. Foi nesse mês que começou oficialmente a crise do subprime .

Carlos Andrade, economista-chefe do BES, considera que olhando para a primeira metade deste ano e para os últimos números que saíram sobre a conjuntura diria que a economia está estagnada. Arrefeceu o consumo, há sinais claros de enfraquecimento no investimento total e nas exportações . As dificuldades suscitadas pelas turbulências internacionais levam o seu tempo a passar à economia. Por isso, as previsões do FMI para Portugal [crescimento de 1,3% este ano e 1% no próximo] fazem sentido , observa.
Endividamento: riqueza ou armadilha
FMI e Banco de Portugal apresentaram, na semana passada, diagnósticos para a economia portuguesa. O FMI diz que Portugal vai abrandar de forma significativa, de uma expansão de 1,3% em 2008 para 1% em 2009; o BdP aposta que a actividade resiste (1,2% este ano e 1,3% no próximo). O FMI alerta que Portugal está endividado em excesso e que, nesse sentido, os problemas fundamentais da economia no actual quadro de crise são internos e que o país não pode continuar indefinidamente a viver do crédito exterior, acima das suas possibilidades; Vítor Constâncio, o governador do banco central, vê a questão de outro ângulo: diz que o endividamento permitiu aos portugueses tornarem-se mais ricos (comprarem casa, carros, etc.) e que, não fosse o choque externo, (juros, petróleo, travagem dos parceiros comerciais) a economia até estaria no bom caminho.

Anónimo disse...

Efectivamente não se sabe onde vai parar essa imensa bola de neve, mas tudo se teria evitado através de um forte controle da especulação imobiliária que beneficiou sobretudo o sector da construção civil e o sector bancário, e agora estão a colher a tempestade, depois de terem semeado os ventos com os lucros gigantescos, com as campanhas do dinheiro fácil, com a excessiva permissividade do acesso ao crédito, e com culpa dos vários Estados, sobretudo os nossos Governos que deixaram anos o mercado do arrendamento na total estagnação, vamos ver se a bola pode ser travada!!!
HS

Marques Almeida disse...

Tenho vindo a ler os artigos e respectivos comentários que alguns leitores publicam neste Blog.
Penso, salvo melhor opinião que este Blog foi fundado no objectivo de trazer á luz do dia os problemas que afectam os munícipes do Seixal. Embora este tema não respeite única e exclusivamente a este Município, ultrapassa-o e atinge todos directa ou indirectamente na sua transversalidade.
Sobre este assunto cabe-me deixar alguns tópicos para quem entenda por bem reflectir:
a) O problema do crédito mal parado, não se deve a conjunturas económico-politicas.
b) A patologia é social.
Ora vejamos:
- O princípio de qualquer negócio é o pactum sum servant (os contratos são para cumprir).
- Se no acto da celebração de um negócio, um dos outorgantes estar a pensar que não vai cumprir com a sua obrigação, a isto chama-se má fé contratual.
- Assim o cidadão que se propõe a negociar deve analisar todos os parâmetros e verificar até que ponto é que pode ou não cumprir, e na dúvida deve ter o zelo de imputar essa responsabilidade a um terceiro, que poderá ser uma companhia de seguros, a exemplo.
Se nos recordarmos, (não passou assim tanto tempo):
- No tempo dos nossos avós (iletrados na escrita) a palavra selava o negócio e, eram raros os incumprimentos. A palavra era uma questão de honra.
- Para abrir uma conta bancária, era necessário apresentar um fiador (não me estou a referir solicitar crédito mas para um simples depósito).
- Antigamente era prática reiterada dar um passo de cada vez e em conformidade com o número do calçado.
Hoje:
- Incutimos estes valores às nossas proles?
- Inundamos os nossos filhos com brinquedos, jogos e outros valores materiais que servem para usar o mais rápido possível, porque amanhã há mais.
- Não se dá valor às coisas, pois estas são fáceis de obter.
- A vida resume-se ao pegar, usar e deitar fora.
- As casas compram-se, usam-se e quando já não as queremos entregamo-las aos credores privilegiados (Banca), porque foram estes os valores que lhes foram transmitidos.
- Na nossa sociedade tornou-se convicção de obrigatoriedade a apresentação do maior número de sinais exteriores de riqueza, na proporção directa do seu estatuto e inversa á ética e bom costumes.
Resumindo, estamo-nos a tornar servos de um consumismo desmesurado, deixando cair por terra os valores éticos e sociais dos nossos egrégios antepassados.
Tudo se resume a um conceito:
Valores…

Ponto Verde disse...

Mas veja-se a quantidade de licenças de construção publicitadas a cada reunião de Câmara no Seixal, veja-se o numero de condominios fechados em construção...
Até parece que estamos imunes á crise, parece que não há nada a aprender... como vai ser grande o trambolhão...

Anónimo disse...

a questão ainda é mais grave porque ainda vamos chegar á situação de existrirem construções que não se vendem, pois começa a haver um excesso de oferta, o que, nos meus parcos de conhecimentos da balança comercial, deveria significar uma redução de preços para criar um aumento da procura.
Ora não só isto não se verifica, como se dá algo de surreal, e que vai contra estas teorias da econmia clássica, as habitações que se vendem mais rapidamente são precisamente as mais caras.
É sem dúvida uma questão de valores, de educação, de paradigma sóciocultural, mas também de falta de ética e de rigor político, económico e social poruq é inexplicável que se permita a especulação imobiliária a este ponto e que ainda se licensie para que persista e até progrida neste país,e como é óbvio também no Seixal.
HS

Google