Brasão Seixal

Brasão original - 1940

Hoje vou aqui deixar a minha análise sobre a heráldica do Seixal que, talvez, aos mais novos não diga muito mas que aos verdadeiros Seixaleiros toca fundo.
O Brasão do Seixal teve a sua versão original no ano de 1940, tendo a sua ordenação heráldica sido publicada no Diário do Governo, I Série de 4 de Julho desse ano. Existe quem atribua os Brasões, "criados" nesta altura, à necessidade da sua exibição, aquando da Exposição do Mundo português, organizada por Salazar visando o enaltecer do orgulho nacional e nacionalista.
Observando o actual brasão do Seixal, pode ver-se que ele sofreu algumas alterações desde a sua criação em 1940, e de facto assim foi. A versão oficial e actual do nosso brasão de armas resulta da elevação da sede do município a cidade, em 2 de Julho de 1993, e obteve o parecer favorável da Comissão de Heráldica da Associação de Arqueólogos Portugueses a 10 de Setembro desse mesmo ano.

Brasão actual (desde que a sede do município foi elevado a cidade) - 1993

O Brasão que é actualmente utilizado de facto possui algumas diferenças em relação ao original, que apenas um olhar mais atento notará. Começando logo pelo barco ("Muleta do Seixal" de seu nome*, e verdadeiro símbolo da realidade piscatória do Tejo no nosso concelho), que no brasão usado actualmente se encontra direito, ao contrário do que sucede no original onde o barco se encontra adornado a bombordo, vendo-se inclusive parte do seu interior. Também o número de seixos de prata (de enorme importância, pois é deles que provem o nome do nosso Concelho), no brasão actual, diminuíram drasticamente, o que, numa análise humorada, talvez seja fruto da desenfreada construção a que se tem assistido um pouco por todo o Concelho. A base do brasão era, no original, toda ela repleta de seixos, bem diferente da actual onde estes surgem centrados e em quantidade inferior.
Também as ferramentas que surgem no topo do brasão, em particular a enxó e o macete de calafate, possuem formatos que não correspondem à realidade. As formas desses instrumentos encontram-se adulteradas, sendo que os actuais desenhos não representam mais que uma simbologia, pois a configuração dos mesmos deveria ser rectangular no extremo superior com arestas boleadas. Tal facto deve-se ao facto das ferramentas dos carpinteiros navais serem "desmontáveis" ao contrário das dos outros carpinteiros. E assim estas ferramentas tinham uma forma diferente de engaste o que se denotava nos cabeções quadrados.

*A Muleta do Seixal
«Do passado da pesca costeira em Portugal chega-nos a Muleta de pesca, provavelmente a embarcação regional portuguesa mais conhecida em todo o mundo, devido à sua beleza e excentricidade. As primeiras referências a esta estranha embarcação datam, pelo menos, do século XVI e desde então, até por volta de 1920, navegou pela paisagem fluvial do Tejo. As Muletas do Tejo, ou Muletas do Seixal (como ficaram mais conhecidas) eram assim designadas por serem grandes barcos de pesca, utilizados unicamente pelos pescadores dos esteiros da margem sul deste rio (Seixal, Barreiro e Moita), chegando a figurar nos brasões de algumas destas povoações. A arte de pesca da tartaranha, uma arte de pesca de arrasto pelo través (atravessada ao vento e corrente do rio) para a apanha de espécies como o linguado, a azevia e a solha, era a que se praticava a bordo desta possante embarcação, que chegava a atravessar a barra para lançar as redes entre o Cabo da Rocha e o Cabo Espichel. A Muleta era uma embarcação de casco largo e chato, com um mastro central inclinado para vante, onde se içava uma grande vela latina triangular (a varredora de vara). Tanto na proa como na popa, destacam-se dois batelós (paus compridos) destinados a amurar e caçar as outras velas (varredora à ré e moletim à proa), assim como a amarrar os cabos que seguravam a rede da tartaranha. Esta embarcação, com uma dimensão média de 12 metros de comprimento, possuía, ainda, uma proa muito particular que, pregueada de bicos, concedia-lhe um aspecto agressivo.»
[Fonte: Museu da Marinha]

2 comentários:

Velas do Tejo disse...

Esta adulteração heraldica tem o cunho do papá Filipe... não aquele que treina a nossa selecção, mas do outro que foi seleccionado, por seu pai do anterior presidente da autarquia, para "treinar heraldica" com o brazão do concelho.

Digamos que a rifa saiu à casa... Já agora, era interessante saber quanto custou!

Ora, sr. Vereador, dê lá uma vista de olhos nos papeis amarelecidos pelo tempo que registam essas coisas.

Velas do Tejo disse...

Já agora, para além da alteração ao seixos (que vem retirar o simbolismo dos mesmo no brazão), também a muleta representada tem um erro gravissímo na orientação do velame.

A vela grande indica que o vento sopra de bombordo, contudo, o pano da popa está enfunado a estibordo. Ou seja, é como se o vento tivesse duas orientações opostas num espaço de 5 metros.

O novo brazão deixa cair aspectos relevantes da morfologia da embarcação, em especial os patilhões nas alhetas, bem como as regra em torno das pinturas tradicionais.

Sobre património náutico do Tejo, leiam hoje o Expresso!

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