Democracia flácida

Quando eu andava na casa dos "vintes" e falava com o Reitor da minha Universidade, personalidade com vastíssimo curriculum académico (dois Doutoramentos incluídos), dizia-me que a democracia, pelo caminho que estava a tomar, mais dia menos dia se iria transformar de novo em ditadura. Eu, na ocasião, tal como agora, já nos "trintas", duvidava. Mas cada vez mais vejo acontecerem situações que me levam a pensar se o que me era então dito, não terá consequências num futuro não muito longínquo. Dois acontecimentos recentes fizeram-me meditar nas suas palavras.
Quando o Bastonário da Ordem dos Advogados vem à televisão falar de um modo tão populista como o que Marinho Pinto utilizou, na entrevista com Judite de Sousa, e quando aborda todos os temas de modo tão aceso, ríspido até… Quando esses temas são acusações quase concretas, mas que se ficam pela publicidade populista e de lançamento quase a roçar o jocoso… Quando perante isto, que achei mau tendo em conta o seu papel social, vem um ex-Bastonário, de carácter mais elitista, contrapor o que o populista havia dito, chamando-o de “gordo”, precisamente com as cinco letras que a palavra tem, mas com intenção de denegrir a imagem do Bastonário... Quando se seguem estas vias pouco ortodoxas para atingir o outro, sem argumentos mais plausíveis… A coisa está má. Para não dizer que, se isto assim continua, há que saber colocar um travão para não descambar ainda mais. Portugal não pode continuar assim. Hoje é. No futuro não pode. Por isso relembro as palavras dos "vintes" ao falar com o meu Reitor.
O outro acontecimento surgiu pela voz de Garcia Leandro, general e director do observatório de segurança, que não teve dúvidas em afirmar que “a situação social em Portugal é potencialmente perigosa”. Diz o general que, “se os partidos nada fizerem, pode acontecer uma explosão ou uma implosão social”, afirmando ainda que “é urgente uma reforma do sistema”, dando quase como dado garantido que “as actuais forças políticas vão implodir, mais cedo ou mais tarde”.
O general Garcia Leandro havia já deixado escapar, perante as câmaras da SIC/Notícias (e quase em entrelinhas), que muitas pessoas já o haviam incentivado a intervir de arma em punho para reestabelecer aquilo que julgavam estar mal na sociedade portuguesa. Talvez embuidas do espirito das sociedades do sul europeu, mais reactivas que as dos paises do norte.
A propósito de tudo isto vem um amigo meu, alentejano de gema e com tendência para o raciocínio próprio da perspicácia não-citadina (que mais facilmente analisa os que cá estão), dizer-me que enquanto não houver algo que meta medo a certas pessoas que pululam e se movem pelo poder o estado de coisas não muda e tudo só tende a piorar. Ouço-o com atenção e penso na sua razão. “Enquanto não houver uma atitude de criar o medo entre os dirigentes o país não avança.” Não estou seguramente a pensar em matar o Rei como em 1908, mas algo que faça o incumpridor de altos cargos começar a temer a sua má actuação é uma questão que deveria entrar nas agendas de discussão e de tertúlias deste país. Já que, quem se senta tem medo.

5 comentários:

Velas do Tejo disse...

Surgiu um novo espaço de informação reflexão:
http://velasdotejo.blogspot.com/

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Anónimo disse...

Sr. Vereador já que fala de dirigentes porque será que na sua autarquia grande parte dos dirigentes estão nomeados em regime de substituição por tempo interminável em vez de se submeterem a concurso como a lei obriga. A lei também obriga a que quando há funcionários em regime de substituição se abra concurso no prazo de 6 meses. Porque não se cumpre a lei na camara do seixal? Como se escolhem estes dirigentes? Seria importante esclarecer-se esta questão, talvez se percebesse melhor o mau funcionamento de alguns serviços e a subserviencia de alguns dirigentes à politica dominante.

Bruno Ribeiro Barata disse...

Caro Camarada Samuel,

Fiquei preocupado ao ler este post.
Pois a instigação à cultura do medo, é sinónimo de Terrorismo.

Quem governa e dirige sob pressão do medo, tem obviamente o seu trabalho extremamente condicionado!
Assim não me parece que a solução passe por amedrontar os líderes.

Será que como profetizava o Reitor, a democracia está perto do fim, e a ditadura está a chegar, implementando assim cultura do medo?
Só consigo associar a cultura do medo às ditaduras; não nas democracias, como é defendido no post.

Lembrei-me de Hassan que na sua fortaleza de Alamut (séc. XI), para ganhar influência ordenava assassinatos de líderes locais, para que o respeitassem, não pelas ideias, mas sim pelo medo que impunha.

Para reflexão, deixo alguns dos significados de terrorismo:

actos de violência praticados contra um governo, como forma de pressão visando determinado objectivo;
forma violenta de luta política com que se intimida o adversário;
modo de impor a vontade por meio da violência e do terror.

Anónimo disse...

Sr. Bruno Barata quando se perde a vergonha é preciso fazer alguma coisa. Estes lideres a quem devemos muito do desgoverno que se vive neste pais não têm vergonha vale tudo desde corrupção compadrio aproveitamento de bens publicos em proveito próprio e estes lideres não me refiro a membros de governos refiro-me a dirigentes da função pública de empresas publicas aos que administram o dinheiro publico não têm vergonha, se não forem um pouco apertados com o medo do que lhe possa acontecer se continuarem a ser desonestos, como se vai resolver este gravissimo problema da nossa sociedade? Estou de acordo com o Vereador Samuel é preciso que a quem não tem vergonha se dê outro tratamento sob pena de se prejudicar os cidadãos que são cumpridores. Democracia não é bandalheira e oportunismo. Rigor responsabilidade e exigência não é ditadura.
Cumprimentos.

zéi disse...

mas com certeza... passaria na cabeça de alguém, neste belo país, que se conidiconassem políticos e outros altos dirigentes a perceberem o significado de democaracia, mais a mais quando eles até ficam tão espertos, empreendedores e bons negociantes depois de passarem por determinados cargos...
Ora se tornam banqueiros, ora se tornam administradores de empresas com interesses em àreas pelas quais eles próprios foram responsáveis por decisões de milhões, ora se tornam emnpresários de sucesso ns mais variados sectores...enfim, tudo gente que a única recompensa que teve por dedicar anos de vida ao serviço público e à causa democrática foi uma súbita e tardia, diria mesmo pós-governativa, iluminação e inspiração pela actividade empresarial...
E eu a pensar que só so senhor ali de Oeiras é que tem a sorte de ter primos na Suiça a quem a activade de taxista corre extraordinariamente bem...
Enfim, se não têm vergonha absolutamente nenhuma ao menos que tenham algum medo, porque no fundo já nós batemos.

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