A primeira Festa da Árvore realizou-se no Seixal

Como já vimos ontem, os primeiros anos do Século XX foram anos de vanguarda no Seixal, para além da República, que aqui foi implantada um dia antes de no resto do país, também a 1.ª Festa da Árvore realizada em Portugal aqui decorreu em 26 de Maio de 1907, a comissão organizadora do evento, mais uma vez, era presidida por essa figura ímpar que foi António Augusto Louro. Mas porque terá António Augusto Louro introduzido esta comemoração no Seixal e no nosso país?
A explicação não será simples, mas certamente não foi por acaso, é sobre isso que pretendo reflectir hoje, num post um pouco diferente do habitual.
Louro, o farmacêutico da terra (dono e fundador da actual farmácia Godinho), educador de adultos em sua casa, seria certamente um Homem de saber universal, talvez por isso, para ele as plantas poderiam representar a própria expressão do cosmos visível, do universo e da universalidade em que o Homem vive, e do seu intermínavel caminho para a perfeição.
Uma explicação mais prosaica poderá defender apenas que a árvore inspira a força do seu tronco e a protecção da sua copa, seria já por si razão suficiente para a enaltecer.
A verdade é que desde sempre as plantas estiveram relacionadas com o destino dos homens, e é nesse sentido que a percepção visível da árvore corresponde à percepção do nosso próprio mistério. As plantas participam do visível e do invisível, este último expresso nas suas raízes e quantas vezes nas suas propriedades terapêuticas que certamente Louro conhecia bem. Por outro lado a sua fragilidade e a sua força podem ter uma analogia com as dos homens, pois uma árvore está na copa e na raiz, no tronco, nas folhas, sendo um estímulo à nossa energia vital, ao nosso pensamento, com a infinidade da sua folhagem, assim como o nosso destino se funde numa única vida e diverge em numerosos ramos.
As plantas são dotadas de todos os conhecimentos e plenas de todos os símbolos e, quer se queira ou não, somos a árvore da vida.
A árvore inspira a força e a protecção. Ao recordar o mistério da terra e do seu lugar leva-nos ao interior do nosso destino.
No templos budistas a árvore evoca Buda, que debaixo dela meditou durante cinco anos.
As plantas com as suas raízes, caules, folhas, flores e frutos estão cheias de simbologia através dos tempos, tendo a sua expressão na planta, em si mesma, ou no conjunto. São numerosas as árvores simbólicas: da vida, do jardim do éden, do cosmos, do conhecimento, da tradição judaica, do tempo alquímico, e do culto da árvore em si, que foi iniciado pelos maçons em festas profanas a partir do século XIX, tradição esta com raízes nas árvores da Liberdade da Revolução Francesa.
Toda a vida depende das plantas, pois de forma directa ou indirecta, é ao reino vegetal que a humanidade vai buscar oxigénio, combustíveis, medicamentos, produtos alimentares e outros nutrientes, vestuário, materiais de construção e solução de outras necessidades. As plantas em todos os espaços e tempos têm um contributo relevante no aperfeiçoamento do conhecimento humano.
A universalidade do simbolismo da árvore testemunha o laço primordial entre a árvore e o homem, e foi certamente a ambos que o Farmacêutico do Seixal quis homenagear em Maio de 1907.

1 comentário:

Ponto Verde disse...

As voltas que Augusto Louro deve ter dado na tumba ao observar o que o Seixal de hoje se tornou, onde a árvore e a floresta são inimigos a abater.

O seu post revela uma decepcionante perda de cultura ecológica e um divórcio da sensibilidade ambiental que então tinham os "opinion makers" desta terra e os que hoje se pavoneiam por entre a Selva de Betão decrescimento rápido e espontâneo que entretanto semearam.

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